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Sábado, Novembro 25, 2006
Sábado, Novembro 25, 2006
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REPENSANDO A VIDA
O sol já se escondia, deixando os seus últimos raios varrerem o pico do monte, no qual, por trás se escondia. Do outro lado da praia, o sombreado escuro da tardinha era o prenuncio de que o dia findava e com ele por certo, o cansaço daqueles que haviam cumprido suas tarefas cotidianas. Pensando assim, julgava eu já haver finalizado também a minha parte. Revolvendo meus pensamentos, sentei-me na areia da praia e fiquei a contemplar um bando de pássaros que passavam enfileirados formando uma pirâmide, iam e voltavam como se contemplassem a nós, cá em baixo, a digerir nossos problemas, nossas dúvidas, nossas angustias e nossos sentimentos.
E na visão fantástica ao desenho deixado pelo traçado desse vôo em meu imaginário, observava o bando formado por dezenas desses pássaros migratórios em forma de pirâmide, que a essa altura, já se perdiam no horizonte, e eu quase entorpecido pela contemplação à aerovia seguida por essas aves, nesta época do ano, me pus a pensar, sem com isso, perder de vista, um quase pontinho escuro em que a pirâmide se tornara. - Pensando, me perguntava. Qual o destino dessa passarada? Quais são suas preocupações? Que sentimentos eles carregam? E por que nós não temos a suposta liberdade desses passaros? Liberdade esta, imaginada por mim, de poder voar como estas aves que voam e voam sem se deixar abater pelo cansaço da jornada empreendida. Presenciei que, se uma do bando fica para trás, outra se desloca e tenta ajudá-la a juntar-se para o vôo coletivo. Foi quando me lembrei de haver lido um texto onde explicava que essa ave desgarrada, quando muito se afastava, o ajudante de vôo permaneceria junto ao passaro afastado até que, ambos voltem a alcançar o bando ou pereçam juntos em algum lugar, sem que tenham alcançado seu destino. É da natureza dessas criaturas maravilhosas.
E numa incompreensível busca de respostas para as duvidas, angustias e sentimentos do homem, me interrogo placidamente. - E somos nós os inteligentes? - Cá estou eu, com as minhas conjeturas, como tantas outras pessoas a questionarem o inquestionável, a buscarem sozinhos aquilo que só obtemos quando formamos parcerias para caminharmos juntos. Quantas vezes por inabilidades erramos, quando na verdade só queríamos acertar. Quantas vezes magoamos, quando só queríamos fazer o outro feliz. Mas, sequer sabemos o que é felicidade! Dizem que a felicidade é feita da junção de pequenos encontros ou momentos felizes, assim como, os pequenos retalhos que se juntam para formar uma colcha. Porém essa obra artesanal da felicidade parece está sempre inacabada para o homem.
Sabe Deus que tentamos de alguma forma amenizar dores sofridas, não cicatrizadas, mas, nem sempre alcançamos os resultados esperados. E às vezes quase nos sentimos fracassados nessa empreitada. Não é tão fácil curar a dor de quem sente, cicatrizar lesões expostas, em decorrência da insensatez humana. Restituir ao outro, a sua auto-estima, sua dignidade, e fazê-lo ver que, o esforço desprendido para a cicatrização dessas fendas, poderar ser compensador.
Não posso imaginar tais fatos ocorrerem naquele bando de pássaros, ditos selvagens.
Mas, o homem no pensar e repensar da vida possibilitarar sem sombras de dúvidas, atingir um dia, à capacidade de discernimento involuntário de ordem, organização e a interatividade reinante, no mundo desses pássaros. E nessa busca por vezes baquearemos, mas, não haveremos de retroceder se o muito, no pouco conseguido, pode fazer a diferença.
As primeiras estrelas começavam a brilhar no infinito, ai me dei conta de que a noite havia chegado, levantei-me, sacudi a areia presa na calça jeans que vestia, olhei na direção do monte aonde o sol se escondera, e agora sim, com a sensação do dever cumprido, e como os pássaros que voam, caminhei lentamente em busca de um repouso. Do merecido repouso.
E nunca haverão de dizer-me. Porquê não tentou?
Novembro de 2006
Feitosa dos Santos, A.
posted by ANTONIO FEITOSA DOS SANTOS 11:23 AM
Quarta-feira, Novembro 22, 2006
Quarta-feira, Novembro 22, 2006
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O DIÁLOGO ENTRE JOANAS E THIAGOS!
Em uma tarde de inverno, a chuva caia copiosamente, e da janela de seu apartamento 805, do Edifício Clarice, situado bem ao centro da cidade, Thiago observava a tormenta e aos poucos passantes que se aventuravam pelas ruas do bairro quase desertas.
-Joana vem ver como deitam os filetes de água da chuva tangidos pelos ventos e jogados sobre as paredes dos edifícios do outro lado da rua!
-Thiago, eu preciso terminar o texto da entrevista que farei amanhã ao "Jornal da Tarde" e infelizmente não posso contemplar as belezas que a natureza sempre pode nos proporcionar.
-Não só beleza - retrucou o Thiago virando-se e olhando para Joana que se encontrava sentada à frente de uma pequena mesa, folheando um pequeno livro, talvez um guia para direcionamento de textos.
-Porquê não só beleza? - Pergunta-lhe Joana com um certo ar de espanto.
-Não só beleza Joana, porque a natureza quando se revolta, lança chamas e cinzas através dos vulcões, terremotos, maremotos, tsunames, abalos sísmicos, chuvas e secas por longos períodos e em quase todos esses fenômenos, vidas são ceifadas, seres humanos e animais. Isso não é belo, não é mesmo?
-Bem eu não havia pensado assim, mas, você tem razão, a natureza, às vezes não perdoa.
-O texto que estas preparando é a respeito do quê? - Pergunta Thiago.
-É um texto onde falo sobre a era das comunicações sem limites e seus meios como: telefone, e-mails, Internet, tv, radio, comunicação verbal e escrita, sem as quais a permanência do homem no mundo de hoje, seria impossível, não achas?
-deve ser muito interessante, sem dúvida não me imagino trabalhar sem o uso da Internet, do telefone celular, da tecnologia de ponta, que nos cercam a cada dia do ano e a cada hora do dia.
Joana ficou um pouco em silêncio, como se estivesse processando a informação que pretendia passar para o Thiago, e alguns segundos depois falou.
-Seria muito interessante que todos soubessem separar o joio do trigo, é preciso saber separar o que é informação geral, das informações para o conhecimento, esta seleção é que faz a diferença, pois muitos informes serão passados, porém, nem todos servem para o saber, a cultura e o desenvolvimento de um povo...
-Concordo com você - falou o Thiago.
Aos poucos a noite ia deixando cair o seu manto escuro sobre a cidade, a brisa soprava lenta e fria, mais uma janela se fechava, o silêncio voltara repentinamente e Joana recomeçava a escrita do texto que preparava para o seu trabalho do dia que viria e os esperava, no despertar da cidade para um novo recomeço de Joanas e Thiagos.
Feitosa dos Santos, A.
posted by ANTONIO FEITOSA DOS SANTOS 1:02 PM
Carta ao Poeta, Soares Feitosa - Crônica
Caro parente Soares Feitosa, nesta tarde em brumas do inverno, da banda de cá do Rio de Janeiro, quando o carioca e os que aqui se instalaram, e não são poucos; gaúchos, paulistas, curitibanos, baianos, nortistas, nordestinos, estrangeiros das mais variadas nacionalidades, que se aquietam em seus lugares, como o faz o sol, por trás das nuvens acinzentadas, nesta estação, chamada aqui de inverno, diferente, porém, dos nossos lados, onde o inverno tem seu começo, ou pelo menos tinha, em inicio de janeiro; suas primeiras chuvas, e vai se esgotando lá por meados de agosto a inicio de setembro, disso eu ainda me alembro, quando até aquele tempo, sequer sabia da existência das quatros estações do ano.
Aproveito este momento em que lhe escrevo, para recordar pequenas frações, das grandes lembranças e de uma saudade danada dessa nossa querida terra, da felicidade outrora vivida, quando criança e hoje reclamada pela esperança de um retorno.
A saudade desse chão, teima em permanecer comigo, mesmo depois de trinta e sete anos, que arredei pé do meu agreste paraibano, lá nas encostas da Serra da Borborema, a minha pequena bananeiras, cidade de cultura diversificada, Universidade Federal, Colégio Agrícola, Colégio Estadual, Colégio das Irmãs Dorotéia; onde estudavam os moças da elite regional.
Caro poeta, eu não fico muito tempo, sem lá ir. Me custa não partilhar com maior repetição, dos eventos e da felicidade que contagia, desse povo nordestino, digo nós, e apesar do pouco caso que fazem os governantes, que sabe Deus, como se instalam nos cargos de mando desse bom país, essa gente cresce e muda a cara de toda essa região do nosso Brasil. Apesar da falta de emprego, da escassez da água, com tanta água, e como você diria, abundancia do sol, visto em sua narrativa em entrevista a Chico Perna, em cinco de março de dois mil e cinco, para o Jornal Opção, em o Jornal da Poesia, cujo exemplar acabo de receber.
Às vezes poeta, não reconheço a terra que deixei, quando me transferi para o Rio de Janeiro. Como mudou, já não se escuta o canário da terra nas folhagens das palmeiras, já não se ouve o pio da cauã, prenunciando a chuva, de acordo com os ditames dos mais velhos moradores da região; já não se ver um mulungu a florir e os beija-flores, alvoroçados em retirar o néctar de suas flores avermelhadas. E até o homem campestre, hoje mais descontraído, sem a sisudez de antes, exibe em sua casa, parabólica para televisão, energia elétrica, telefone celular e até a Internet, hoje, é parte do seu dia a dia.
Não que eu seja contra aos avanços desse mundo globalizado. É como diz Martha Medeiros em seu livro Coisas da Vida: impossível deter o desenvolvimento de lugares e pessoas. Puro exercício de nostalgia. O que escrevemos. Mas, te confesso poeta, sinto um fisgar de saudade daquela época em que parávamos para ouvir as lindas canções na voz do Rei do Baião, o Lua, saída do alto falante do velho e bom companheiro Transcampeão.
O meu mais sincero abraço.
Rio de janeiro, outubro de 2006.
Feitosa dos Santos, A.
posted by ANTONIO FEITOSA DOS SANTOS 1:00 PM
A FARINHADA
É noite de outono, uma lua redonda desponta no quebrar da barra, a comadre Maria, como é chamada na região, juntamente com seu Zé, o marido, os setes filhos que sempre os acompanham, isto sem contar os três cachorros e os dois gatos que os seguem sempre na retaguarda, chegam à casa de dona Damiana; batem-lhe à porta e a chamam:
- vamos pra casa de farinha raspar mandioca, porque noite de lua cheia é noite de farinhada.
Todos da região se juntam no trabalho coletivo de uma farinhada. Sentam-se ao chão, em torno da ruma de mandioca, colocam um saco de estopa por sobre as pernas e começam as raspagens com suas facas afiadas.
O seu Mané junta as mandiocas raspadas em um balaio, cesto feito de cipó de macaco, trançado; jogando-as sobre a mesa do rodete, uma peça de madeira, roliço, que gira sobre um eixo. Nele, são fincadas várias serras dentadas de aço, para triturar a mandioca, é envolto em uma caixa de madeira, para proteção das mãos; já se encontrava limpo o cocho, feito de tábuas, formando um grande vertice, onde a massa mole seria aparada.
A raspagem continua noite adentro, um café aqui, outro ali e muitas estórias ditas "de trancoso", cantarolas e repentes é uma festa aos olhos de quem aprecia. Seu Joaquim começa a preparar os panos da prensa, feitos da palha do coqueiro trançado, uma para cada lado. Virando-se para o salão, adverte ¿ comadre Damiana vem cevar mandioca, que seu Chico e João da Grota, já estão puxando a roda, isto quer dizer, girar uma grande roda de madeira de aproximadamente três metros de diâmetro, presa em um pedestal tipo quadripé, sobre dois mancás e com duas manivelas, tipo braço, onde se coloca uma cânula feita do gomo de bambu e dois homens utilizando a força de seus braços, fazem-na girar. Ela fica a uns cinco metros de distância da mesa do cevar, esta é fendada ao centro, em todo seu contorno, por onde passa uma corda de couro, trançado, chamada de reio, que faz girar o rodete em alta velocidade. - Estou indo compadre, quero ver se esta cambada raspa o suficiente para eu cevar. Falavam que dona Damiana era uma cevadeira das boas.
A roda moendo, o rodete cevando, a massa caindo e a manipueira jorrando. O senhor Joaquim coloca os panos na prensa, um para cada lado da borda do cocho, depois apanha uma gamela, utensílio feito da madeira leve, o mulungu, árvore de flores vermelhas, enche de massa mole e coloca na prensa sobre os panos, assim, até lotar a cavidade feita na madeira, depois, junta as extremidades dos paneiros, como também é conhecido, amarra com as cordas de sisal, passadas por baixo dos mesmos, sobrepondo a prancha da prensa, sobre a qual, será baixado o fuso, que fará pressão sobre a massa, para eliminar toda a manipueira existente, caldo liberado da mandioca triturada.
A prensa é uma estrutura de madeira, muito forte, composta por duas laterais. Na parte superior é encaixada uma viga; ao meio, é perfurado, para encaixe de um grande parafuso de madeira, chamado fuso. Na extremidade inferior deste, há uma grande cabeça, com dois furos cruzados, ultrapassando os lados, onde se coloca o pau do fuso, para os trabalhadores apertarem a prancha sobre a massa. Na parte inferior, fica outro travessão, no qual, se abre uma cavidade, onde a massa mole é processada sobre forte pressão. Embaixo da prensa, se coloca uma grande gamela, para apanhar a manipueira que jorra, dessa manipueira, é extraído a goma, fécula muito branca, retirada da mandioca e da qual se faz o polvilho, a tapioca, o mingau e na região, muito utilizada no preparo de um liquido, para engomar roupas de linho, antes de se passar o ferro.
A farinhada seguia seu rumo. Lá pelas tantas da noite, a prensa é desatarraxada, a massa enxuta, é retirada e atirada ao cocho de massa para peneirar, retângulo de madeira, com aproximadamente três metros de comprimento, um metro de largura e cinqüenta centímetros de altura. Uma grande rupema, utensílio feito de fibra de bambu, trançado, que serve para peneirar a massa enxuta. - Peneira sinhá Francisca, que o forno está esquentando; gritava seu Rivaldo, ateando lenha ao forno, uma grande circunferência de aproximadamente quatro metros de diâmetro, com altura em torno de um metro, construído de tijolos e forrado com lajotas de meio metro de largura por meio metro de comprimento, sentadas sobre arcos de tijolos. Entre os arcos, se formava a fornalha, cuja entrada, se chamava boca do forno, por onde se ateia a lenha a ser queimada, que produz o calor e esquece o mesmo.
O Sr. Rivaldo gritava, - prepare o rodo seu Joaquim, que já vou atirar a massa, pois o forno está no ponto. O rodo é uma vara comprida de madeira e em sua extremidade coloca-se um pedaço de tábua, de aproximadamente meio metro, a madeira, deve ser de cedro, para deslizar por sobre o forno e não largar farpas na farinha. Durante aproximadamente duas horas, a massa é atirada sobre o forno, mexida com o rodo, para lá e para cá, até o pó ficar fininho, redondo, bem sequinho e assim ser retirado, medido em cuia, utensílio de madeira, equivalente a dez litros, assim, vai ensacando-se a farinha, produzida na farinhada.
Após haver cevado toda a mandioca, dona Damiana retira do cesto, uma peça de pano de saco, amarra as duas extremidades com a fibra da bananeira e as prende em duas estacas fincadas ao chão. Junta em uma bacia, uma poção de massa mole com água, vai colocando em pequenas quantidades, na rede de coar goma, e torcendo com as mãos a mistura vai deixando o caldo cair em uma gamela. Aos poucos o caldo é passado para outras vasilhas, após um certo tempo, a água fica por cima de uma camada branca depositada no fundo dos utensílios, utilizados para a decantação, assim é retirado a goma, fécula, substância farináceas de tubérculos como a mandioca.
A massa enxuta continua sendo peneirada, para a próxima fornada. Os fragmentos que sobram deste processo, são chamados de crueira, ao final da farinhada são atirados sobre o forno para secagem, servindo como alimentação para a criação de galinhas caipiras, perus, suínos e cabras, criados por muitos desses agricultores, do nordeste brasileiro.
Seu Rivaldo continua mexendo a farinha sobre o forno e de repente fala para sinhá Francisca, - prepare a massa, com sal e muito coco ralado, para o beiju de forno, pois nisto eu sou mestre. Logo a massa ficou pronta e fôra colocada em um canto sobre o forno, o Rivaldo vai mexendo a farinha, em torno do beiju, até que as bordas, comecem a levantar, ele joga por cima da massa esticada, um pouco da farinha quente e após algum tempo, solta-o do forno e começa a enrolar como se faz a um rocambole, e toda a farinha é revolvida ao pendurar-se o beiju.
Ao virar da madrugada, as crianças sonolentas, algumas dormindo em algum lugar da casa de farinha, grande estrutura de madeira de lei, coberta com palhas de coqueiros, em formato duas águas, ou com telhas de barro, em estruturas quatro frentes, contornada por meia parede de tijolos e pilastras que fazem a sustentação da cobertura.
A cada família é dadas uma fatia do beiju e uma porção de massa enxuta para se fazer o beiju de casa, sendo os mesmos servidos no café da manhã; as mulheres e as crianças voltam a suas casas, enquanto os homens, ficam prensando, peneirando e torrando a farinha na noite que ainda será longa.
Seu Zé, aproveitando o clarão da lua, fôra até o paiol de lenha, buscar mais uma braçada, para encostar a boca do forno e ir secando, pois o orvalho da madrugada, estava tão intenso, que chegava a molhar tudo que não estivesse sob uma cobertura.
Seu Chico, Joaquim e João da Grota davam o último aperto, na penúltima prensa da noite; colocam o pau no fuso e sacodem com força os corpos, dois puxando e um empurrando, com toda a disposição que Deus lhes deu e eles podiam ter. A prensa chega a estremecer e o fuso a ranger. Já é pouca a manipueira, a escorrer para a gamela, que se encontra embaixo da mesma. Comentam: em menos de uma hora, a massa estará pronta para ser peneirada.
Seu Rivaldo atira o rodo ao fundo do forno, puxa a farinha em sua direção, apanha um punhado e joga para cima, verificando se a goma, se espalha no ar, como acontece com a poeira, se isto ocorrer, está pronta para ser retirada e ensacada. Vê que ainda não ficou no ponto, voltando a empurrar e a puxar a farinha freneticamente.
O Sr Mané, faz de um tudo, agora peneirava a última porção de massa enxuta, que havia no cocho. João da Grota lhe fala: - "nós já vai afrouxar a outra prensa e tu vai ter de peneirar, Véi Mané, aqui nós trabaia". Seu Mané que sempre foi um homem de muitas graças lhe responde com uma rima.
Jogue de lá, sua massa,
Que de cá, estou te vendo,
Quando vier, venha quente,
Porque eu estou fervendo.
Foi uma risadagem só, seu Chico bate palmas e diz para João da Grota, - vai esse menino, enfrenta o poeta se tu tens pólvora no cartucho. E boas risadas se faziam ouvir no silêncio da madrugada, que uma vez por outra, apenas os latidos dos cães se faziam ouvir; talvez acuados por alguma raposa que ousara passar próximo de um galinheiro.
Uma voz suave se faz ouvir, em um raro momento de silêncio, em meio a tanta trabalheira. "Vamos retirar a prensa, para colocarmos a última massa mole, que ainda se encontra no cocho". Era o Sr. Joaquim, que chamava a rapaziada, despertando-os da sonolência que o cansaço estava a provocar, após um dia e uma noite na labuta.
Após a retirada da prensa enxuta, fora colocado às últimas massas moles, que ainda se encontrava no cocho. Apertaram bem o fuso e a manipueira começa a jorrar. Seu Mané peneirava, o Rivaldo a jogava sobre o forno, mexendo-a "pra lá e pra cá", o forno estava muito quente, precisava mexer rápido, para a farinha não engrossar.
Ao despontar do sol, todos comemoram o fim da farinhada, tirando do forno a última cuia de farinha, da última fornada. Ao todo foram secenta e quatro cuias. Restava apenas jogar a crueira sobre o forno e puxar o braseiro da fornalha, para não queimar os tijolos do forro, por isso, espalhava-se a crueira ao final da farinhada, com a finalidade de resfriá-lo com a absorção do calor pêlos detritos da massa peneirada. Agora, restava separar a conga devida, ao proprietário da casa de farinha. Conga é uma unidade de medida regional, ou seja, para cada cuia produzida, um litro é para o dono da casa de farinha; neste caso, seis cuias e quatro litros. Do restante, parte fica para o consumo familiar, o restante será vendido. Com o dinheiro da venda, serão comprados os produtos, não produzidos pêlos agricultores regionais, espécie de simbiose, ocorre nas pequenas localidades, do interior do nosso país, vende-se algumas coisas, para que outras possam ser compradas.
Nessa mesma manhã, seu Rivaldo, arreia os burros de carga, prepara duas sacas de seis cuias cada, três cargas ao todo, atrela duas sacas a cada animal, toca os burros, segue a estrada rumo a rua. A farinha já havia sido encomendada, por um dono de mercearia, que passaria a vendê-la a retalho. Rua é como os brejeiros e sertanejos denominam em geral, as pequenas cidades, onde os agricultores, vendem os produtos produzidos, em seus pequenos sítios. Isto se constituem, na principal fonte de renda dessa gente; que mesmo no anonimato, fomentam a economia, deste grande pais chamado Brasil.
Feitosa dos Santos, A.
posted by ANTONIO FEITOSA DOS SANTOS 12:57 PM
Razões Para Chorar
Surpreso eu fiquei ao ver duas lágrimas rolarem sobre a face daquela jovem mulher, surpreso não pelo choro, que tantas vezes, nós mesmos, nos deparamos com um nó na garganta, e as lágrimas, a deslizarem rosto abaixo, enquanto disfarçamos que um cisco caiu em nossos olhos, principalmente os homens, que foram ensinados para não chorar. Quem de nós nunca ouviu, de um tio, tia, avô, avó ou dos próprios pais, "homem não chora", frase mais besta!
O espanto maior foi ver um rosto tão bonito, um corpo delineado, e por trás das lágrimas, a frágil delicadeza de uma mulher. O que a teria motivado a soluçar baixinho, como se não houvesse ninguém por perto? De certo, alguma coisa acontecera para que as lágrimas jorrassem apagando o brilho de um olhar indagador.
Estático eu fiquei a pensar, e por vezes senti vontade de lhe perguntar o que a atormentava, mas, se quieto já estava, quieto ainda mais fiquei, talvez as lágrimas fossem como a chuva a molhar um jardim de rosas, que ao desabrochar, expõe as mais lindas pétalas e um aroma que só a natureza pode nos propiciar.
Haviam me falado que as mulheres tem disso, às vezes choram, mesmo quando não deviam chorar. Não me convence esta afirmação, sinto, pois, que o homem não entende a mulher, como ela desejaria ser entendida, e acredito ainda, que deveria ser mais compreendida. São elas, as mães de nossas mães, as mães dos nossos filhos e carrega uma carga emocional maior do que qualquer homem poderia carregar.
A jovem mulher, que poderia se chamar Carolina, Joana, Martha ou outro nome qualquer simbolizava naquele momento, a alma feminina de muitas mulheres que choram, seus sentimentos, suas angustias, a perda do ser amado e porque não, a própria felicidade alcançada; são razões por certo - qual seria a daquela mulher? É bem verdade que nunca saberemos.
Fiquei a observar, como se pudesse desvendar o mistério existente, por trás daquele soluçar, que mal se podia ouvir, e mesmo a distância, procurei entender palavras não ditas, embora, gesticuladas em seus lábios, num sussurro indecifrável, como se ela percebesse que alguém a percebia.
Desde então, tenho procurado entender as razões pelas quais choramos, e posso afirmar que ninguém chora por chorar. Sempre há uma razão, um motivo e chora-se até pelo prazer concebido. Há o choro por depressão, por sentimento, por dores, há o choro magoado; e o choro pela perda? Nem se comenta.
De todo coração, eu gostaria, que o choro da jovem mulher tenha sido de alegria, por alguma coisa que ao invés de haver perdido tenha ganhado, e que chorava pelo prazer do acontecido.
Mas, quem há de saber?
Novembro de 2006
Feitosa dos Santos, A.
posted by ANTONIO FEITOSA DOS SANTOS 10:28 AM
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